Estupidez II

Beto Vianna, Jornal O Tempo, 06/12/05

Na esteira do excelente artigo de José Maria Couto Moreira (O Tempo, 07/12/05), que diz não haver “em nosso inesgotável vernáculo, adjetivação mais apropriada para aqueles que resolvem exibir no corpo desenhos de toda a sorte, às vezes intricados, gravações na carne que nada traduzem senão uma infeliz criação de momento”, quero oferecer minha contribuição, pois concordo com o advogado ipsis verbis em gênero, número e grau. E que santo grau!

Esses modismos absurdos marcam, perfuram e mancham indelevelmente nossa pele original, corrompem o corpo e nenhum benefício trazem à alma, pois apesar das tatuagens trazerem às vezes singelos dizeres (como “Eu amo a mamãe”, no braço do marinheiro) via de regra não trazem nenhuma mensagem construtiva para a humanidade. Por exemplo, os gavião-kyikatêjê pintam o corpo de cima abaixo, não apenas nos rituais da tribo (o que já seria ruim o suficiente) mas até num simples passeio pela floresta! Como disse o advogado José Maria Couto Moreira, apropriado inclusive na metáfora silvícola, “um cipoal de linhas e curvas que terminam por assemelhá-la mais a um monstro pré-diluviano, temível, repugnante, enfim, um adversário da natureza humana”. Consensus omnium!

E os piercings, essa agressão ao corpo? Prática só comparável à dos extintos botocudos, de colocar uma bolacha de madeira nos lábios - até de crianças! - deformando pra sempre as linhas originais da perfeita boca humana, ou dos (ainda vivos!) matis, na fronteira do Peru, conhecidos como caras-de-onça pelos adornos trespassando o nariz. Aquilo é bonito? Um horror! Governo brasileiro e Funai melhor fariam enviando uma força-tarefa às reservas indígenas para arrancar, na marra, esses ataques deliberados à nossa natureza, opus dei.

Há antropólogos, pós-modernos, pós-hippies e outros seres obtusos que explicam esse costume nojento como “simbólico”. Mas isso é evidentemente um absurdo, pois, se esse fosse o caso, as tatuagens que os adolescentes e os adolescente tardios colocam no corpo seriam simbólicas também! É como algumas tribos africanas e os antigos egípcios, que punham e põe presentes e comidas para seus mortos. Morto vai abrir e usar o presente? Vai comer a comida? Não vai. E mesmo assim essa turma que consome o dinheiro do contribuinte nas universidades públicas chama isso de “simbólico”. Haja paciência! E as flores? Que hábito mais estranho é esse das pessoas colocarem flores para seus saudosos entes queridos? Alguém pode me dizer com que finalidade? Cui bono?

Expliquem-me o motivo de se perfurar uma parte do corpo, a orelha, por exemplo. Quem prefere beijar uma orelhinha de mulher - a coisa mais graciosa do mundo, quando intocada - com aquele pedaço de metal, às vezes até enferrujado, atravessado no lóbulo? Pior são os pais, que na sua malignidade, fazem isso quando a pobre criaturinha ainda é um bebê e não pode se defender da deformação indesejada! Qui bene amat, bene castigat...

E há gente ainda mais estrambótica que explica essas agressões à morada da alma como parte de uma “cultura”. Nonsense! Índios, marinheiros e adolescentes são dignos cidadãos brasileiros, e como tais, que ajam dentro dos parâmetros mínimos da civilidade e dos bons costumes. Essas tribos infernais de funkeiros, metaleiros, punks, trash, grunge, hip-hop-hurra e sei lá o que mais, isso é cultura? Que tomem banho, cortem e tirem a tinta de seus cabelos, arranquem os pregos e desenhos do corpo e coloquem uma roupa decente. Talvez a raiz do problema esteja mesmo na cultura, pois essas pseudo-pessoas são incapazes, como todo ser humano normal e natural, de escutar as obras primas da música universal - como Ray Coniff - ou da incomparável tradição musical de nossa pátria - como Amado Batista - e entregam-se, ao invés disso, a essa catarse animalesca de ruídos eletrônicos (danosos, inclusive, para a saúde auditiva). O tempora, o mores!

Como disse o célebre filósofo e estadista George W. Bush ao bombardear 5.000 anos de civilização humana, “a melhor cultura é a minha”. Quod erat demonstrandum.

Decência, homofobia e outras anomalias

Beto Vianna - Jornal O Tempo, 27/11/05

Pra que serve o sexo? A resposta depende da audiência. Há quem diga que não apenas não serve pra nada, como devíamos evitá-lo o mais das vezes. Que seja só no casamento, por favor, e, se possível só pra reproduzir. E sexo entre os de mesmo sexo? Pior ainda, segue nosso interlocutor nem tão imaginário assim: um desvio, coisa de depravado. Inútil, anômalo e anti-natural. Será?

Desculpem-me os que pregam o sexo como um mal necessário, nosso recurso suficiente para perpetuar a espécie, sua única e digna função. Sexo, biologicamente falando, não é sinônimo de reprodução. Sexo é recombinação genética, o embaralhamento do material genético de dois organismos que pode ou não resultar num terceiro. Reprodução é o surgimento de um organismo individual a partir de um (se não houver sexo) ou dois (se houver) outros. Nos primeiros dois bilhões de anos da história da vida, os organismos só se reproduziam sem sexo. E, além do mais, faziam sexo sem se reproduzir, como continuam fazendo até hoje. Ligamos uma coisa a outra apenas porque no nosso caso (e no de muitos outros organismos), houve um acoplamento histórico da recombinação genética com o momento da reprodução.

A bactérias podem passar genes diretamente de uma pra outra, sem que se reproduzam. Parafraseando Lynn Margulis, é como se você desse um beijo em uma pessoa de cabelo verde e saísse com o cabelo daquela cor. “Macho” e “fêmea”, nesse caso, são categorias móveis, se, graças às nossas preferências culturais, quisermos chamar assim as bactérias doadora e receptora. Afinal, um “macho” pode facilmente vir a trocar de papel em sua próxima interação. Em organismos sexuados, apesar de macho e fêmea terem aí um significado mais restrito (os doadores do espermatozóide e do óvulo) os papéis também podem se inverter. Isso acontece com seres hermafroditas e outros que trocam de sexo, como alguns peixes e anfíbios.

Você pode retrucar, mas não é desse sexo que estamos falando: por maiores que sejam as estripulias genéticas desses micróbios e seres rastejantes, sexo é o encontro sensual entre dois indivíduos, aquela confusão de braços e pernas, com todos os “hmmms” e “aaahs” característicos. Tudo bem. Apenas como exemplo, conheça então nosso parente mais próximo, o bonobo. As credenciais desse animal no meio científico são as melhores possíveis naquilo que nós mais prezamos: inteligência e linguagem. Os bonobos são as estrelas de uma linha de investigação conhecida como Ape Language Research (pesquisa de linguagem símia). O bonobo mais famoso, Kanzi, interage com a pesquisadora Sue Savage-Rumbaugh, da Georgia State University, utilizando símbolos visuais, assim como você e eu estamos fazendo agora.

Pois os bonobos, seja na floresta ou no cativeiro (para desespero dos guias nas visitas escolares ao zoo), são mestres absolutos na arte do sexo. A reprodução é apenas uma pálida função, quase um efeito colateral da amplitude comportamental dos bonobos na sexualidade. Os bonobos entregam-se ao encontro homossexual como uma atividade corriquira, e envolvem na brincadeira parentes e até (perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem) crianças. Tia e sobrinho, velhos amigos e companheiras de cela praticam sexo nas mais variadas posições, sem limite no número de parceiros. Os bonobos são adeptos inclusive (entre suas muitas outras opções) do sexo face-a-face, tão distintivo da humanidade. Quando dois grupos de bonobos encontram-se em uma área de alimentação, ao invés da esperada briga pelo butim, o mais provável é que as fêmeas liderem um encontro amoroso entre as duas facções. Se para alguns humanos a agressão é um substituto do sexo, nos bonobos é o amor livre que substitui a pancadaria. Em vez de considerá-los pervertidos, devíamos antes maravilharmo-nos com a forma com que carícias e prazeres cumprem várias funções sociais na comunidade bonoba. Os bonobos têm muito a nos ensinar, se formos capazes de colocar nossos piores preconceitos de lado.

Não sou insensível a uma crítica-padrão a tudo que acabo de dizer: “mas você está falando de seres dominados pela biologia; o humano é senhor de suas escolhas, não tem que se sujeitar aos ditames da natureza - só nós temos deveres morais”. Primeiro, será mesmo apropriado dizer que outros organismos são “controlados pela natureza”? Assim como nós, outros seres vivos são modificados e modificadores de seu ambiente e de outros organismos na interação, ou seja, continuar a vê-los como mísseis tele-guiados é um péssimo mito. E se nós - graças à inteligência, cultura e “livre-arbítrio” - podemos optar pela moralidade, alguém pode me dizer, afinal de contas, que moralidade é essa?

Sabermos que bactérias fazem sexo sem reprodução e bonobas têm uma queda por suas amigas não significa que “devemos” ser promíscuos ou homossexuais. Nenhum exemplo natural é um guia sobre que condutas devemos seguir, e o contrário também vale: se a homossexualidade fosse anti-natural ou anômala, não veríamos tantos seres “dominados pela biologia” imersos nessa prática. Do lado humano, nada em nossas culturas (pois, assim como Minas, elas são muitas) serve de lei universal para o jeito certo de fazer a coisa. Boa parte da humanidade é e historicamente sempre foi homossexual (pergunte aos gregos), promíscua, poligâmica, e sabe-se lá o que mais. Homofóbicos e sexualmente conservadores precisam decidir de onde vão desenterrarar seus argumentos, pois há muito que, das mais simples criaturas unicelulares até os humanos mais bem-dotados de livre-arbítro, todos parecem ter uma visão bastante avançadinha da forma e da função do sexo. Se continuarmos a passar nossa responsabilidade de escolhas morais para a natureza - ou qualquer outra suma autoridade - talvez ela nos mostre aquilo que não queríamos ver.

Um cartucho não é apenas um cartucho

Beto Vianna - Jornal O Tempo - 01/11/05

O que separa o humano do mundo natural é a inteligência, a capacidade de resolver problemas de forma planejada. Se não fabricássemos instrumentos, estaríamos perdidos diante das bestas terríveis que habitavam as savanas africanas, berço da humanidade. Garras, dentes e força bruta foram substituídos no humano por um arsenal bélico de fabricação própria.

Você com certeza já ouviu essa lad